sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

COLUNA | A Tirinha Nossa de Cada Dia

Eu sempre senti que as tirinhas de jornal formassem um mundo a parte dos quadrinhos em geral. Obviamente, há diferenças entre a produção de tiras e a de histórias em quadrinhos tradicionais, que vão desde a estrutura formal até ao aspecto do conteúdo. Aquelas precisam ser muito mais concisas do que estas, por exemplo. Talvez por isso poucos autores façam tão bem a transição entre os dois meios, sobretudo se formos excluir as tiras de super-herói, que caíram em extinção há vários anos.

Mas isso não deve ser visto com demérito. Sempre fui um apaixonado pelas tiras de jornal e sinto com pesar sua iminente extinção, acompanhando a derrocada da imprensa em papel. Nas últimas décadas, o espaço destinado a esse tipo de conteúdo tem diminuído cada vez mais, de forma que experiências como a proporcionada por Bill Watterson em Calvin e Harold nas páginas de domingo são quase impraticáveis no momento. A esperança é que a produção para internet se consolide e abra as portas para grandes materiais.

Na última década podemos ver alguns ótimos projetos nesse sentido. O primeiro exemplo que me vem a mente é Malvados, de André Dahmer, cujo sucesso foi tanto que o jornal Folha de S. Paulo passou a publicá-la na sua, cada vez mais minguada, coluna de tirinhas. Talvez sentindo a mudança dos tempos, artista há muito estabelecidos no cenário brasileiro, como Adão, Laerte e Fernando Gonsález passaram a focar na publicação na internet e em álbuns físicos.

É com esperança e expectativa que acompanho essa transição do meio de publicação das minha tão amadas tiras. Mas é com certo pesar que imagino um futuro onde não poderei acompanhar tiras tão queridas, como Mafalda, Hagar, Piratas do Tiête e Turma da Mônica em papel jornal. Era uma experiência quase sensitiva a que eu tinha com o jornal impresso e esses quadrinhos: o cheiro do papel, a sua textura, o som das folha sendo dobradas. Conferir logo de manhã a folha de quadrinhos era uma tradição minha e que pavimentou o meu caminho para os quadrinhos em geral. Enfim, como eu disse, trata-se de algo bem particular e que talvez poucas pessoas sintam o mesmo.

Certo é que os tempos mudam e novas experiências tomarão espaço, novas tiras serão produzidas e as antigas não serão esquecidas. Há também o risco disso tudo que escrevi acima ser só mais um devaneio de alguém que é mais rabugento do que deveria, afinal, os jornais continuam aí e os bons quadrinhos também. Vida que segue.

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